13 de abril de 2018 às 02:00

Produtores se escoram no falacioso discurso da comida artesanal

Direto ao ponto: alimentos artesanais são um engodo. Nada tão grave, porém. O termo "artesanal" não passa de um truque de marketing ?e marketing, por definição, é engodo.

Direto ao ponto: alimentos artesanais são um engodo. Nada tão grave, porém. O termo "artesanal" não passa de um truque de marketing â?”e marketing, por definição, é engodo.

Estamos imersos no engodo marqueteiro e sobrevivemos sem percalços. Mas, se quisermos entender este mundo trapaceiro, faz bem chamar as coisas por seus nomes próprios uma vez ou outra.

No estrito cumprimento de seu papel social, parte dos produtores de conservas, embutidos, cerveja, chocolate e demais alimentos se escora em um discurso falacioso.

Eles opõem sua mercadoria â?”dita artesanalâ?” aos produtos de fabricantes maiores e poderosos, rotulados como "industriais". Na realidade, ambos são engrenagens da mesma máquina.

Toda comida processada que você compra legalmente em São Paulo é industrial. Há indústrias grandes e pequenas, mas órgãos de inspeção exigem algum tipo de instalação para emitir certificados.

O verdadeiro artesanal é o queijo vendido na beira da estrada â?”sem licença e cheio de coliformes fecais.

Pequenos e grandes produtores são interdependentes. Itens feitos em escala reduzida, com maior valor agregado e processo (presumivelmente) mais esmerado, só existem devido à evolução do segmento "mainstream".

Em outras palavras: o salame hipster de luxo tem espaço porque antes dele veio a mortadela. E os pequenos produtores atuam como ponta de lança da indústria, prospectando oportunidades para os grandes do segmento.

Além de inadequado, o adjetivo "artesanal" é capcioso. O marketing guerrilheiro o emprega livremente como sinônimo de garantia de qualidade. Não serei eu o embusteiro.

A indústria brasileira tem padrões bem frouxos, e de fato os artesanais costumam ser melhores. Mas isso não pode ser tomado por regra. Quem gosta de cerveja conhece o chorume engarrafado por alguns artesãos.

Se você quer mesmo garantir a qualidade daquilo que mete goela adentro, não existe atalho nem fórmula fáceis. Leia as letras miúdas dos rótulos e só compre aquilo que entrega o prometido. O resto é marketing â?”nossa enganação de todos os dias.

MARCOS NOGUEIRA é responsável pelo blog Cozinha Bruta, publicado no site da Folha (cozinhabruta.blogfolha.uol.com.br)

Fonte: FOLHA

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