10 de julho de 2018 às 02:00

'Insones' faz crítica ao desejo que perpetua cultura do consumo

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Em "Insones", o autor Victor Nóvoa e o diretor Kiko Marques investigam relações típicas da modernidade, mediadas pelo consumo e pela tecnologia.

Para tanto, lançam mão de uma dramaturgia constituída de discursos propositadamente rasos, quando não vazios, e de uma encenação que estabelece um universo frívolo e artificial.

A direção parece ler no texto uma tensão entre indivíduo e sociedade. O primeiro projeta um desejo irrealizável na segunda, escamoteado na forma de consumo desenfreado, hedonismo autocentrado e rolar sincopado de timelines.

No palco, uma cena aparentemente festiva: enquanto aguardam, inquietos, a contagem regressiva que anuncia o ano novo, as figuras interpretadas por Paulo Arcuri, Fernanda Raquel, Vinicius Meloni e Helena Cardoso dividem um grande sofá.

O quadro sugere uma civilidade sintética e higienizada que é, gradualmente, contaminada por impulsos violentos e vorazes, presentes na verborragia e nos gestos convulsos dos personagens. Hiperativos, ansiosos e paranoicos, eles parecem metáforas para neuroses contemporâneas.

Onipresente, a trilha sonora de batidas eletrônicas, assinada por Carlos Zhimber, além de sugerir um estado mental conturbado, imprime à encenação um ritmo frenético ao qual os atores reagem como que bailarinos coreografados.

A insônia aparece como metáfora para uma vida em sociedade regida pela produção e o consumo incessantes. Ainda que impedidos de cair no sono, os personagens são confrontados pelo inconsciente em imagens oníricas: uma criança que cospe pelos enquanto canta; um homem que solta pregos pelos olhos enquanto implora por um abraço.

De fato, as personagens parecem pouco à vontade com o próprio desejo, como ilustra uma cena em que não conseguem articular o que tanto almejam â?”o que também pode ser lido como uma crítica ao esvaziamento dos discursos.

Tal sugestão é mais clara em cenas que emulam a cacofonia das redes sociais e seu poder de diluir e homogeneizar as falas mais díspares e de silenciar outras. Num dado momento, um dos atores é pintado pelos demais com tinta cinza, o que parece aludir a um linchamento virtual (ou aos grafites apagados pelo projeto Cidade Linda, do ex-prefeito de São Paulo João Doria Jr.).

Ambiciosa, a dramaturgia de Nóvoa faz muitas sugestões e aponta para várias direções. A ausência de um eixo temático mais sólido, críticas mais embasadas e alvos mais delineados poderia fragilizar a encenação, mas a direção de Marques enxerga esses elementos como recursos formais que evidenciam o conteúdo sobre o qual se debruça a montagem.

Entre tantos espetáculos que denunciam a sociedade contemporânea como produto do fracasso civilizatório, "Insones" aponta o indivíduo e seu desejo insaciável como responsáveis por retroalimentar e, portanto, perpetuar a cultura do consumo.

Fonte: FOLHA

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